Hoje no Jornal Público vem um artigo de opinião de José Vitor Malheiros, do qual transcrevo as passagens mais importantes…

” O café onde vou todas as manhãs aumentou o preço da bica de cinquenta cêntimos para cinquenta e cinco. “Porque é que aumentaram?”, perguntei no balcão. “É para apoiar a inflação?”. “São só cinco cêntimos…”, respondeu-me o empregado com a careta “só pessoas muito forretas é que fazem estas perguntas”. “São dez por cento. É para tentar ultrapassar o objectivo de inflação do Governo?”. “Sabe como é… princípio do ano”.”Mas não é obrigatório aumentar no início do ano e muito menos dez por cento”.”Não podia ser menos…”.”Podia. Podia ser um cêntimo, que era dois por cento (mais perto da inflação estimada) ou dois cêntimos que já estava acima da inflação”.”É para ser redondo…”, respondeu-me o empregado… “Mas se a preocupação era ser redondo podiam ter deixado os 50 cêntimos. Uma moeda de cinquenta cêntimos mais uma de cinco é tão redondo como uma moeda de cinquenta cêntimos mais uma de um”.

O “número redondo” é uma obsessão portuguesa. Nos Estados Unidos, pátria por excelência do capitalismo, ninguém se queixa por ter de pagar 2,91 dólares por um café e um bolo – e prefere pagar 2,91 a 2,92. E o argumento cai pela base quando se vê que os comerciantes adoram coisas a 99 euros (“Nem chega a cem euros, vê como é barato?”)…

E um café a 51 cêntimos levantaria outro problema: os trocos. Penso que nunca nenhum comerciante fora de Portugal me disse que não tinha troco. Mas, entre nós, os trocos são preciosos. Tão preciosos que nem se usam, entesouram-se, guardam-se para momentos de aflição e, principalmente, nunca se dão de troco. (“Não tem trocado? Não é que não tenha troco, mas se me pagar com os vinte euros depois fico sem trocos”).

Ninguém protesta contra um aumento de dez por cento no café porque, como em todos os países com uma longa tradição de pobreza, as pessoas não querem passar por pobres e esquecem que o que está em causa é o preço justo e o aumento relativo – independetemente do seu valor absoluto. Não são só as bicas. Há imensos negócios que abusam desta cultura de pobreza envergonhada, rapando discretamente pequenos cêntimos ou escassos euros que se transformam em taxas de crescimento pelos quais muitos bancos venderiam a alma – se a tivessem. As consultas médicas privadas dão discretos saltos de 20 euros, só para arredondar. Os doentes fingem que não reparam, para não parecer pobres. “

 

A propósito… Hoje dei 5 euros por um saca-rolhas…